O Distrito Histórico da Destilaria e seu Toronto Light Fest

Distrito da Destilaria. Foto: Divulgação

Distrito da Destilaria. Foto: Divulgação

Quem acompanha este blog vai perceber que, virou, mexeu eu estou falando do Distrito Histórico da Destilaria, e não é à toa. O complexo, ao leste do centro de Toronto, formado pelos 47 prédios da antiga fabricante de bebidas Gooderham and Worts, chegou a ser uma das maiores destilarias do mundo no século 19, mas após seu fechamento em 1990, ficou a esmo por mais de uma década.

Adquirido por um grupo de investidores privados, em 2003, foi espetacularmente restaurado e convertido em centro cultural e de entretenimento. Hoje, é o conjunto de arquitetura industrial vitoriana mais bem preservado da América do Norte e um dos lugares mais visitados da cidade, tanto por turistas como por quem vive por aqui.

Vários elementos da antiga fábrica de bebidas foram preservados durante a restauração e reutilizados  na decoração do complexo, como maquinários, paredes com tijolos expostos nos galpões, garrafas das bebidas fabricadas, com os rótulos envelhecidos pelo tempo, e até lustres originais da época.

Andar pelas ruas de piso irregular da Destilaria, adentrar suas instalações, tocar sua estrutura é como uma viagem de volta no tempo: difícil deixar de questionar como teria sido a vida em seus tempos áureos, o que aquelas paredes grossas já testemunharam.

Se seu inglês é fluente, vale a pena fazer uma visita guiada com o pessoal do Go Tours Canada, que pode ser motorizada, em cima de um segway. O tour é feito por guias simpáticos e extremamente preparados, num clima bem casual.

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O estranho e divertido veículo de duas rodas chamado de Segway, usado nos tours do pessoal do GoTours Canada – Foto: divulgação

Restrições para novos ocupantes

Uma das exigências dos novos proprietários da Destilaria é que as instalações do complexo só fossem alugadas por pequenos negócios: butiques, cafés, galerias, instalações de arte. Nada de grandes franquias.

Dá para passar um dia inteiro por lá, zanzando de loja em loja, parando para um café, um almoço, mais loja e mais café (ou uma cerveja, tequila ou um saquê?), um chocolate quente, mais compras…

Não deixe de visitar: a loja Bergo, lotada de souvenires inusitados; a chocolateria SOMA, famosa por seu chocolate quente espesso e de sabor intenso ou sua mais nova concorrente, recém-chegada na Destilaria, o café Cacao 70, com um cardápio imenso de bebidas e pratos à base de…exato, chocolate.

bergo

Algo diferente para levar para casa – souvenires da loja Bergo – Foto: divulgação

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Vai uma dose de chocolate? Da chocolateria SOMA – Foto: divugalção

O café Balzac’s, prata da casa (canadense, de Stratford, cidade natal do cantor Justin Bieber)  fica numa das esquinas mais bonitas do complexo, ocupando um galpão de dois andares, de tijolos expostos e com um charmoso mezanino que faz as vezes de galeria de arte, com excelente ângulo para fotos do lustre espetacular do lugar.

Balzac's Distrito Historico da Destilaria by Alessandra Cayley

Como nos velhos tempos

De um modo ou de outro, o Distrito Histórico da Destilaria ainda produz bebidas alcóolicas, abrigando em suas instalações uma cervejaria, a Mill Street Brewery e uma produtora de saquê, Izumi, a primeira do leste da América do Norte. Ambas oferecem tour e degustação.

Outro lugar imperdível é o restaurante de comida mexicana El Catrin, seja pela comida, deliciosa (mas apimentada, cuidado), pelo cardápio gigante de tequilas ou pelo décor do lugar, simplesmente fantástico. E eu falei que tem o melhor churros que eu já comi, fora do Brasil? Em dia de semana ainda dá para conseguir uma mesa para o almoço, mas à noite e em finais de semana, o lugar lota, com filas de virar a esquina. Aconselho reserva.

El Catrin Alessandra Cayley

Interior do restaurante El Catrin – não dá para saber onde olhar primeiro – Foto: Alessandra Cayley

Toronto Fest Light

Toronto Light Fest

A partir deste ano, dá para esticar o passeio ainda mais. Desde 27 de janeiro até 12 de março, assim que o sol se põe, o Distrito Histórico da Destilaria se transforma numa galeria de arte ao ar livre, com a primeira edição do Toronto Light Fest. São 21 instalações, de artistas locais e internacionais, feitas de luz, milhares delas, em esculturas coloridas que tomam conta do complexo: no chão, no ar, penduradas entre um prédio e outro, nos telhados, dentro e fora dos galpões do distrito.

A ideia primária é divertir e nos fazer esquecer da escuridão que o inverno traz, mas olhando com mais atenção à cada instalação e os nomes com que foram batizadas, há um chamado para reflexão.

Um exemplo é a obra do artista alaa minawi (assim mesmo, tudo em minúsculo, como ele prefere seu nome grafado): my light is your light (minha luz é sua luz), composta de seis figuras, como se fossem pessoas, em tamanho real, feitas de tubos de néon. Elas aparecem encurvadas, como se estivessem caminhando e acabado de chegar de um lugar distante. Segundo o artista, são refugiados, assim como seu pai e seu avô foram, palestinos que fugiram para o Líbano.

my light is your light Toronto Light Fest Alessandra Cayley

my light is your light, de alaa minawi – Foto: Alessandra Cayley

A escolha do néon para a obra foi proposital: os tubos foram encurvados para lembrar uma corcunda, pessoas cansadas de tanto perambular, e fazem figuras vazadas, apenas com contornos. Por dentro, os tubos são ocos, assim como são os refugiados, segundo minawi.

Outra obra interessante é a Bands of Friendship (algo como Círculos de Amizade), do arquiteto e designer Vikas Patil, da Índia. A obra simboliza amizade eterna, com seus círculos posicionados de tal maneira que o expectador enxergue a obra de uma maneira diferente, dependendo de sua perspectiva.

Toronto Light Fest Alessandra Cayley

Momentos do Toronto Light Fest, incluindo a obra Bands of Friendship, a terceira foto, da esquerda para a direita – Fotos: Alessandra Cayley

Algumas instalações são interativas, com obras que acendem e apagam de acordo com o tráfego de pessoas ao redor delas. Uma das mais populares é a The Magic Dance Mirror (A Dança do Espelho Mágico), do documentarista americano Kyle Ruddick.

Instalado dentro de uma sala escura, é preciso passar por uma espessa cortina vermelha para chegar até ele. Antes disso, só o que se ouve é um som eletrônico bombando, convidando para dançar. Uma vez dentro, o que se vê é uma tela gigante, lembrando uma sala de cinema, que capta os movimentos à sua frente e os projeta de forma animada, transformando tudo em sombras feitas de luz.

The magic dance mirror Alessandra Cayley

Dançarinos contratados fazem parte da instalação para demonstrar como o espelho mágico funciona, mas qualquer um, com coragem suficiente, pode entrar na dança na frente do espelho e ver sua performance transformar-se em um espetáculo de contornos, sombras e luzes. É contagiante, a criançada adora.

Aproveite as temperaturas amenas destes dias finais de inverno e vá conferir. O festival vai até o dia 12 de março e é totalmente gratuito.

Toronto Light Fest – De 27 de janeiro a 12 de março. Horários: de segunda a quarta-feira, das 8h às 22h; de quinta à sábado, das 8h às 23h. 9 Trinity Streetthedistillerydistrict.com