Bate-volta Toronto-Niagara: pelas cachoeiras e pelos vinhos, em qualquer estação

E quem sabia que a belíssima Niagara-on-the-Lake fica  ainda mais bela no inverno, produzindo, somente nesta época, o Icewine, um dos melhores vinhos do mundo? Um brinde à mãe-natureza!

Quando viajamos, sabemos que há lugares que têm de ser visitados e ponto final; pela importância histórica, por ser atração turística imperdível ou os dois, como Niagara Falls, a menos de duas horas de Toronto.

Mas às vezes, por serem tão famosos por uma específica razão, nos desapercebemos do que mais eles teriam a oferecer, incluindo seus arredores como, neste caso, a cidade histórica de Niagara-on-the-Lake. Vizinha pacata das badaladas cataratas, localizada a apenas vinte minutos de carro do parque onde fica Niagara Falls. Motivo para visitá-la? Além de ser um dos maiores pólos mundiais na produção de vinhos, é linda de morrer.

Uma das cidades mais antigas do Canadá, Niagara-on-the-Lake (NOTL) foi fundada em 1781 por soldados americanos legalistas durante a Revolução Americana (ou Guerra da Independência dos Estados Unidos) contra o domínio inglês. Com o nome de Newark, foi a primeira capital do Canadá, em 1792 (então chamado de Upper Canada), tendo perdido o título para York (agora, Toronto) por sua vulnerabilidade, estando muito próxima da fronteira com os Estados Unidos (a capital do país ainda mudaria mais quatro vezes, estando em Ottawa, desde 1867, a 400 quilômetros de Toronto).

Durante a Guerra de 1812, NOTL foi atacada por soldados americanos, que lutavam para reconquistar este território das mãos dos britânicos, tendo sido queimada quase que em sua totalidade. Reconstruída, passou a ser chamada de Niagara-on-the-Lake, em 1880, tornando-se um vibrante centro cultural e turístico de Ontário, atraindo mais de dois milhões de visitantes por ano.

Niagara-on-the-Lake, como seu nome sugere, fica às margens do rio Niagara, de águas do lago Erie, desembocando no lago Ontário, correndo no sentido sul a norte, e perfazendo a fronteira natural entre o Canadá, a leste, e os Estados Unidos, a oeste.

Enquanto Niagara Falls é toda agitação, Niagara-on-the-Lake é tranquila e bucólica. O burburinho concentra-se na Queen Street, principal rua da cidade, com seus prédios de arquitetura vitoriana do século 19 ocupados por lojinhas de souvenires, cafés e restaurantes, assim como seus casarões antigos transformados em hotéis e graciosos B&B (Bed & Breakfast). Seu entorno, incluindo a cênica estrada que liga a cidade à Niagara Falls, a Niagara Parkway, é de fazer cair o queixo, com casas e mansões em estilo vitoriano e jardins imaculados.

first snowfall of the year ☃️ // @nataschiawielink

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A cidade atrai visitantes durante o ano todo, especialmente durante os meses mais quentes, quando abriga o  Shaw Festival, um dos maiores festivais de teatro de repertório da América do Norte, com peças de abril a novembro.

Mas, tem um outro bom motivo para visitar NOTL, principalmente durante os meses de temperaturas mais inclementes…

Alguém falou em vinho?

Como se não bastasse, NOTL está localizada a uma latitude 43,5 graus norte, a mesma que a região de Bordeaux, na França, e  parte da Itália, o que explica seu clima extremamente favorável para a produção de vinhos. Hoje, a cidade conta com mais de 70 vinícolas, famosas por seus vinhos de uvas Riesling, Chardonnay, Merlot, Pinot Noir, Baco Noir, Sauvignon Blanc e o precioso Icewine.

Vinho doce, viscoso, aromático e caro (a partir de 40 dólares a garrafa), o Icewine é produzido com uvas deixadas nas videiras para serem congeladas naturalmente pelo vigoroso inverno da região, e assim adquirirem um maior nível de açúcar. Quando estão no ponto, são colhidas a mão, durante a noite e processadas imediatamente para evitar seu descongelamento.

Por que tão caro?

Por todo seu processo de fabricação, intensamente laborioso e arriscado, mas principalmente pela escala com que é produzido: enquanto é necessário menos de um quilo de uvas para a fabricação de uma garrafa de vinho de mesa, uma garrafa de Icewine leva o equivalente a 27 quilos da fruta. Apenas uma gota é extraída de cada uva congelada.

Apesar de não ter sido inventado pelos canadenses (teve origem na Alemanha, no século 18), o país é hoje o maior fabricante de Icewine, responsável por 80% da produção mundial deste vinho.

Só para a hora da sobremesa?

Apesar de ser normalmente rotulado como dessert wine (vinho de sobremesa), o Icewine pode – e deve – fazer parte de qualquer momento da refeição. Em visita às vinícolas de NOTL, aprende-se muito sobre ele.

Cada fabricante oferece diferentes tipos de tours, de simples degustação no balcão a visitas guiadas, além de seminários, lanches e almoços para aprender sobre harmonização de vinhos.

A região também oferece vários festivais de vinho e culinária ao longo do ano, como:

Niagara Icewine Festival – Para celebração da colheita e fabricação de Icewine na região, com a participação de 35 vínicolas. É dividido em diferentes eventos, desde jantar de gala (que abre o evento) a festivais outdoor em Niagara-on-the-Lake e na região de Twenty Valley, ao mais popular deles, degustação e harmonização de Icewine nas próprias vinícolas. Para participar, é só adquirir um o Discovery Pass, a C$ 45 mais impostos, vendido online. Cada passe dá direito a oito “experiências” ou degustações. Escolha suas vinícolas favoritas, na brochura do festival e comece a experiência.

O amigo da vez também tem vez, com o passe a C$ 35 que dá direito à harmonização de pratos com bebidas sem álcool.

Niagara Grape and Wine Festival – Nos mesmos moldes do Icewine Fest, ocorrendo no final do outono, o maior evento para celebração da produção de vinhos no Canadá, com mais de 100 eventos, incluindo shows e feiras ao ar livre, desfiles de rua, assim como uma programação especial de degustação e seminários nas vinícolas participantes.

Algumas opções de vinícolas a serem visitadas durante seu passeio por Niagara-on-the-Lake, com ou sem festival:

Colaneri Estate Winery – Como muitas vinícolas da região, leva o nome da família que a opera. De suas instalações, uma suntuosa construção em estilo romanesco, de quase três mil metros quadrados e em forma de “C”, pode-se observar as videiras ao redor da propriedade, também partes da produção de vinhos. Com salas para degustação, seminários e loja.

Inniskillin Wines – Pioneira na produção de vinhos na região, também na fabricação de Icewine, liderando este mercado. Foram eles, em parceria com a empresa de copos de cristal Riedel, os criadores do Icewine glass ou “taça perfeita” para saborear a bebida.

https://www.instagram.com/p/BdyPDfvj4Q9/?taken-by=inniskillinwines

Konzelmann Estate Winery – A menos de cinco minutos de carro do centro de NOTL, é a única vinícola com vista para o lago Ontário. Foi a sétima vinícola a se instalar na região, em 1984, quando a família Konzelmann, que já vivia da fabricação de vinhos na Alemanha desde o final do século 19, resolveu imigrar para o Canadá, depois de passar férias por aqui.

A vinícola também oferece degustação e visitas guiadas às suas instalações. VisiteToronto esteve por lá e conheceu o simpático Gus Miranda (no post abaixo), português, e um dos maiores entendidos de vinho por ali. Havendo interesse em fazer degustações e tours guiados, na nossa língua, é só falar com ele, agendando a visita com antecedência, através do e-mail: gusm111@gmail.com.

Lakeview Wine Co. – Ocupando um galpão industrial, com ar mais moderno e despojado, operada pelo conglomerado Diamond Estates Wines and Spirits Inc., o terceiro maior produtor de vinhos VQA* em Ontário.

Wayne Gretzky Estates Wines – Uma das mais badaladas vinícolas de NOTL, leva o nome do dono, Wayne Gretzky, jogador canadense de hóquei no gelo, considerado o melhor da história. Na vinícola, que também produz uísque e licores, há espaço para degustação, lojinha de bebidas e souvenires inspirados no esporte, além de restaurante e um rinque de patinação no gelo outdoor. As paredes do complexo são decoradas com memorabilia do ídolo.

Como chegar:

É muito fácil chegar em NOTL. De carro, partindo de Toronto, chega-se em Niagara-on-the-Lake em menos de duas horas. Pela rodovia QEW, siga em direção à Niagara. Depois de atravessar a ponte Garden City Skyway em St. Catharines, pegue a saída 38B, seguindo as placas para Niagara-on-the-Lake, Highway 55. Pegue a Highway 55 por 12km até chegar na Queen Street.

Também dá para ir de ônibus, em  excursões, de trem, até de avião.

Só não deixe de ir!

 

(*) O que é VQA? A sigla significa Vintners Quality Alliance, que é um órgão independente, que estabelece e monitora as regras de produção de uvas e fabricação de vinhos em Ontário. Para exibir o selo de VQA Ontario na garrafa, é mandatório que o vinho tenha sido produzido a partir de uvas 100% cultivadas na província.

 

Bom passeio!