A história por trás dos grafites que brilham no escuro em Toronto

Podemos dizer que o “produto” mais popular do Canadá, no mesmo patamar que o xarope de maple, as Cataratas do Niágara e as Montanhas Rochosas, é seu inverno. Para o bem ou para o mal, é o que faz o país ser mais conhecido.

Toronto não escapa da sina. Tem gente que vem para cá só para ver neve, curtir tudo o que o inverno tem de bom, e tem gente que não vem neste período nem pagando, por medo dele.

Sortudos os que fizeram a primeira escolha, neste inverno de 2017/2018. Toronto embraced (abraçou a causa, assumiu) sua estação mais fria e duradoura que, no calendário, só dura três meses como em todo lugar mas, por aqui, parece querer ficar por mais tempo, tomando de assalto os últimos dias de outono e os primeiros de primavera.

Foram diversos festivais de luzes, como o Toronto Light Fest e o novíssimo Winter Fest at Ontario Place, baladas no gelo com DJ, incluindo as realizadas na trilha de patinação The Bentway, inaugurada num dia onde os termômetros marcavam temperaturas de 20 graus negativos, demonstrando como os locais lidam com as intempéries da estação: está um frio de congelar os ossos? Bora para uma apresentação de break dance no gelo.

O último afago na estação foi o projeto T.O. Glows (Toronto Brilha) onde Allan, (Uber5000), EJ (Young Jarus) e Ben (Ben Johnston Design), três dos maiores grafiteiros da cidade, foram convidados a pintar três muros de Toronto com temas relacionados ao inverno. Mas estes não seriam grafites comuns, não: os desenhos foram finalizados com um verniz especial, fazendo-os reluzir no escuro. Assim que o sol se põe, a camada especial de tinta dá uma nova vida às grafitagens, realçando e até modificando suas cores para nuances fluorescentes, imperceptíveis durante o dia.

Trabalho de Uber5000 – lindo durante o dia…

…fantástico à noite!

Todos querem tirar foto do grafite que brilha no escuro!

A escolha do projeto – grafitagem – não foi por acaso. Toronto é considerada a quarta capital do mundo neste tipo de arte, somando-se a Filadélfia, Nova Iorque e Paris.

Os murais começaram a ser produzidos em meados de fevereiro, mês mais frio da estação, o que não freou os artistas:

O artista Allan em ação, debaixo de uma das maiores tempestades de neve que Toronto viu este ano (Imagens extraídas do vídeo da conta do Tourism Toronto no Instagram. Ele ainda está lá no Stories, vá conferir: @SeeTorontoNow)

Os murais deverão ficar em exposição até o final do inverno, que termina dia 20 de março, mas o futuro de cada um deles depende dos seus donos: os artistas que os criaram. Apesar de os trabalhos terem sido encomendados pela Tourism Toronto (Associação de Turismo de Toronto. Sim, nós mesmos!), a instituição não quis ter autonomia sobre as obras.

Onde ver os murais:

As obras foram grafitadas ao longo da área conhecida como West Queen West, o pedaço mais cool da cidade e onde encontra-se o maior número de grafitagens, como o Graffiti Alley (Beco do Grafite). Com mais de um quilômetro de extensão, virou atração turística, situado na Rush Lane entre as ruas Spadina Avenue e Portland Street, paralela à rua Queen Street West.

Por concentrar obras tão diversas e de tamanha qualidade artística, o espaço é hoje protegido pela associação de comerciantes da região. Grafiteiros de todo o mundo já deixaram suas marcas nesta galeria de arte de rua, sendo Allan (Uber5000) um dos mais famosos e ativos, com mais de 70 de suas pinturas espalhadas pelo beco e pela cidade, sempre tendo o icônico passarinho amarelo, marca registrada do artista.

Um dos grafites mais impressionantes do Graffiti Alley, assinado por Uber5000

Tanto o mural de Allan quanto o de EJ (Young Jarus) estão no beco Grafitti Alley, enquanto o de Ben (Ben Johnston Design) está na Ossington Avenue, avenida com ar tranquilo e suburbano, e que vem roubando a cena como o novo pedaço mais descolado da cidade, atraindo os grafiteiros mais antenados.

Mural do Allan: 489 Queen Street West (na esquina da viela entre o restaurante Cacao 70 e a loja de camisetas Bang On).

Em seu mural, Allan retrata certos ícones da cidade que reluzem quando o sol se põe, como a pista de patinação do espaço Nathan Phillips Square com o letreiro TORONTO ao fundo.

Mural do EJ: 162 Portland Street, atrás da loja de presentes Outer Layers, a um quarteirão de distância do grafite de Allan.

O mural de EJ sendo capturado pelas lentes de um admirador, que estava com muito frio para sair do carro!

Mural do Ben: 146 Ossington Avenue, na parede lateral da lavanderia JB Laundromat e uma loja de pneus.

Ben explica que sua inspiração para o mural vem das manchas de óleo deixadas pelos carros nas pistas que, misturadas com neve, formam uma espécie de “espuma líquida” cobrindo o pavimento da cidade.

Aproveite a visita e fique para jantar: a Ossington Avenue é conhecida por seus ótimos restaurantes, bares, cafés e até uma microcervejaria.

Bom passeio!

 

Fotos do post: Alessandra Cayley